29/05/2004 14:20
Aventuras Grootescas de um paulistano recém-chegado a Salvador

O caso da mandioca

Mamãe, nascida no interior da Bahia, pouco tem de baiana típica: Detesta acarajé e vatapá, não tem sotaque e não é muito chegada à praia.
Mas é uma excelente culinarista ( sorte minha, o “provador oficial) e, certo dia, ainda com menos de um mês em Salvador, ela pede que eu vá comprar um punhado de mandioca para fazer um bolo.
Fui à uma quitanda próxima de casa. E um calor, rapaiz... Mas chego ao local e travo o seguinte diálogo com o vendedor:
-Boa tarde. Me dá aí um quilo de mandioca...
-Mandioca? Tem não.
Dou uma olhadinha no estabelecimento. Lá no fundo da loja, uma carga de...mandioca:
-E o que é aquilo ali no fundo?
-Oxe, aquilo é Aipim.
Fui olhar de perto. Eu já tinha visto mandioca antes, e não tinha tomado umas pra confundir...
-Ué, mas isso aqui é mandioca, moço...
-É não, rapaiz...Isso é aipim!
-Ué, mas é a mesma coisa....
-É não. Mandioca é mandioca, Aipim é aipim.... Você quer é pra que?
-Pra fazer bolo...
-Só se faz bolo com Aipim.
-E mandioca, não?
-Rapaiz, mandioca é diferente. Mandioca é mandioca, aipim é aipim!
E ficamos neste imbróglio por uns 5 minutos. Mandioca. Aipim. Mandioca. Aipim. É. Não é. Então, já cansado dessa história, disse ao vendedor:
-Olha, tá certo, tá certo...me dá logo 1 quilo desse troço aí...
Pra piorar, fui para casa com dúvida. Afinal, era mandioca ou aipim? Cheguei em casa e falei para minha mãe:
-Mãe, só tinha isso aqui...
-Mas tá certo...é mandioca, mesmo...
-O sujeito lá da quitanda disse que era um tal de aipim...
-Ah, é mesmo. Aqui em Salvador é conhecido como Aipim...não te falei antes....

Nota de “inutilidade”: Mandioca – também conhecida como Aipim, Macexera. Diz-se muito sobre bolo de aipim, podendo ser chamado como “bolo de puba” ou “bolo de carimã”. Resumindo: Vem tudo da mandioca!


Iansã? Iemanjá? God Save the queen?

Confesso: nunca fui simpatizante com práticas do candomblé. E aqui em Salvador, para minimizar preconceitos, cessar perseguições ou disfarçar mesmo o que já ocorria há séculos, os orixás são associados a santos católicos, o chamado sincretismo religioso. Grande parte dos soteropolitanos não tem, então, nenhum pudor em rezar um terço pela manhã em uma Igreja Católica, freqüentar um Centro Espírita pela tarde e freqüentar um culto em um terreiro à noite.
Mas a fé é de cada um, quem somos nós para condenarmos algo? Porém meu primeiro contato, digamos, com o Candomblé e seus costumes foi algo...constrangedor.
Fui aprovado nos concursos de rede pública de educação da Bahia ( rede estadual e rede municipal) logo quando cheguei a Salvador. Alguns novos colegas, ao saber de minha origem, quiseram me mostrar as “coisas” da Bahia.
Em Setembro, propriamente no final deste mês, acontece o “São Cosme e Damião”, festa de origem católica, mas os adeptos do candomblé fazem a oferta de um “caruru” para o Santo. É por isso que na Bahia se diz “fui convidado pra um caruru”, pois geralmente é “dedicado” a algum santo ou entidade do candomblé. E quando se diz essa palavrinha “caruru”...ah, o soteropolitano logo se agita, pois é sinônimo de muita, mas muita comida, mesmo. Mas o que é o tal “Caruru”? É uma iguaria que mistura quiabo, camarões secos, cebola, coentro,pimenta,sal,azeite de dendê...acompanhado de galinha no caldo de dendê. Forte, não é?
Já repararam que faço muitas digressões...pois bem, voltemos ao “causo”. Uma colega professora convidou-me para o tal “caruru” em uma sexta-feira à noite, na residência dela, após o término das aulas. Educadamente, recusei, por não ser simpatizante do candomblé e nem do caruru (detesto quiabo). Ela insistiu tanto e, por ser uma pessoa extremamente querida – e também por livre e espontânea pressão dos companheiros, aceitei dar uma “passadinha” lá.
Dá-se muita importância à cor da roupa na Bahia, principalmente às sextas-feiras. Branca é a cor predominante. E para vocês terem uma idéia do que é o caruru na Bahia, o diretor até dispensou os alunos mais cedo, só para que nós, os professores convidados, pudéssemos desfrutar as delícias de um caruru.
Saímos da escola e fomos até a residência da colega. Noto um certo descompasso: Meus colegas estavam com camisas claras, ao menos, quando não brancas; E lá estava eu, jeans e camiseta preta estampada dos Sex Pistols com a sugestiva frase “No future”...
Finalmente chegamos ao local do “caruru”. Pela movimentação, a casa, ampla, estava tomada.Estava mesmo. E, logo na entrada, uma baiana, típica mesmo, com aqueles vestidos brancos cheios de babados, jogava pipoca em nós. Como sou notório apreciador de pipoca, abri a mão para pegar algumas. Ia levando-as à boca quando um colega me cutuca:
- Rapaiz,não pode comer, não; Isso é proteção para que Exu* não entre nesta casa...
Resignado, deixei a pipoca escorrer por entre meus dedos. Achei que o colega estava “tirando” uma com minha cara, mas descobri depois ser verdade.
Adentramos no recinto.Um corredor. Uma pequena fila. Primeiro meus colegas. Eu apareço por último na ampla área lotada de pessoas comendo e conversando animadamente em mesinhas de metal.
De repente, todo mundo olha pra mim. Eu, tímido, fico sem saber porquê; Olho para trás para ver se havia alguma coisa errada; Não. Era pra mim que eles estavam olhando. Aproximo-me de um colega e cutuco:
-Puxa, esses caras sabem reconhecer uma personalidade, não é?
-É...dá uma olhada melhor em volta...
Olhei. Cor predominante: Branca. Alguns balões azuis. E lá estava eu, de preto. Eu era uma personalidade, de fato...senti-me o próprio Exu**...
As cores de Cosme e Damião são azul e branco. Logo, estavam todos de branco, pouquíssimos vestidos com alguma peça azul. Baixei a cabeça o máximo que pude e dirigi-me à mesa que nossa colega gentilmente preparou para nós. Como ela sabia que eu sou paulista abestalhado, não deu atenção à cor de minha camiseta. Muito solícita, ofereceu-nos vinho.
E ficamos todos ali conversando, um outro colega explicando-me tudo sobre orixás e festas deste tipo ( esqueci tudo) e a coisa estava animada. O pessoal parece que percebeu que eu não era Exu*** e já estavam acostumados, creio...Teve até uma cara que disse já ter ouvido Sex Pistols, imagine só, em pleno evento “pro santo”.
Falando na ‘estrela” da noite, o caruru é servido. Meus amigos são servidos por uma simpática senhora que traz pratos que são verdadeiras “montanhas” de comida. Chega a minha vez. Educadamente, recuso. A senhora adquire uma feição entre o espanto e a decepção.
-Liga não, é paulista abestalhado, dizem os colegas.
A senhora dá um risinho amarelo e sai. É como no Rio Grande do Sul: Se te oferecem chimarrão, é muita ofensa não aceitar.
Eu estava absolutamente deslocado ali. Todos comendo (muito) e conversando(muito). E eu olhava o relógio(muito). Passava das 11 horas. Tudo o que eu mais queria era dar o fora. Levantei-me e os colegas logo pressionaram com os típicos “aonde você vai?” e “ô rapaiz, espera aí...” Esperei um pouquinho... Estava com uma fome daquelas. Mas nem pensar em caruru. A anfitriã vem até nossa mesa e diz:
-Vocês tem que experimentar o aruá.
-Experimentar o quê?
-Aruá. Olha aqui,ó, toma um pouquinho.
Uma bebida diferente...de coloração marrom. Até brinquei indagando se era “batida de amendoim”. Mas não era. Difícil explicar o gosto. Mais difícil ainda é explicar como é feito.
-Já comeu rapadura? Então, é feito dali.
-Tipo..."licor"de rapadura?
-É, mais ou menos...mas tem outros ingredientes... é pro santo.
Resolvi deixar pra lá. Se é pro santo, então que o santo fique com o resto. Muito doce, parecia rapadura, mesmo. Desconfio que se alguém tomasse uns copos daquilo ficaria “alto” rapidinho.
Finalmente, hora de ir. Já passava da meia-noite. Despeço-me da anfitriã, agradecendo muito a recepção e pedindo desculpas por alguma indelicadeza. Ela agradeceu minha presença e desejou-nos boa noite. Alguns olhares ainda voltavam-se para mim. Calma, pessoal, Exu**** já está saindo.... Mas sem antes ser purificado. Novamente a baiana da entrada da casa ( lembram-se dela? A da pipoca) está lá com sua bacia a jogar-nos pipoca. Com uma fome daquelas e doido pra beliscar algo para enganar o estômago, pego algumas pipocas e levo-as à boca quando o mesmo colega me cutuca e diz:
-Ô, rapaiz, também não é pra comer, não; Agora é pra que Iansã o proteja aqui fora.

*******Exu: divindade diabólica, demônio, “coisa ruim”. Acho que Syd Vicious* ficaria orgulhoso...
* “baixista”( re re) dos Sex Pistols**
** banda percussora do movimento punk*** Inglês.
*** Ah, chega! Todo mundo sabe o que é punk, não é?

enviada por Groo, o errante






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